Esse conto foi escrito aos 15 anos. É o último dos contos de terror que postarei aqui por enquanto.
O Corpo
Não me venha dizer que sou mentiroso. Apesar dessa história ter acontecido comigo eu acredito nela tanto quanto você acreditará depois de ouvi-la. Não me considero bom contador de histórias, mas vou tentar reproduzir os fatos da melhor maneira possível.
Hoje, quando paro para pensar naquela noite, tudo o que vem à minha mente são imagens confusas e perturbadoras. Eu não estava lúcido naquela noite, mas tenho certeza de que o que vi foi real. O medo também foi real. Tão real que – só de pensar – meu cuzinho pisca como uma árvore de natal. Sim senhor.
Eu vinha do casamento da minha irmã e estava bêbado o suficiente para estourar o bafômetro de qualquer policial valentão. Dirigia meu velho Ford pela BR 230 e àquela hora a estrada estava tão deserta que poderíamos dar uma trepada no meio da pista sem se preocupar com o trânsito. Eram 01:20AM. O rádio do carro estava sintonizado na 101,7FM e eu acompanhava uma música dos Ramones, aquela que fala sobre um “cemitério de bichos”. Enquanto eu cantarolava, tamborilava os dedos no volante e, de vez em quando, levava uma latinha de kaiser a boca, remanescente do casamento de minha irmã, depois a deixava repousar em cima do painel de instrumentos.
Estava passando por um trecho da estrada que sempre me deixava silencioso, assustado. Havia uma mata de cada lado da estrada. Deixei a música seguir sem mim. Meu coração estava um pouco fora do ritmo normal e, se quer saber, eu estava com medo sim.
Vou lhe dar um conselho: Nunca beba dirigindo, você pode derrubar a cerveja. Foi exatamente isso que aconteceu, a latinha que oscilava sobre o painel de instrumentos caiu no meu colo e começou a derramar seu precioso líquido.
– Merda – disse, aquela era a última cerveja.
Baixei cabeça rapidamente e apanhei a lata. Ainda restava um pouco de cerveja, ufa! Quando olhei novamente para a estrada meu coração disparou. Havia uma pessoa no meio da pista, parada, me encarando. Não pensei duas vezes, pisei no freio com toda a força, mas já era tarde demais. O baque surdo do corpo se chocando contra o carro até hoje atormenta meus pesadelos. Fechei os olhos. Os pneus cantaram e o meu velho e amassado Ford dançou no asfalto.
O carro parou. O pára-brisa agora era estilhaços e o corpo estava ali, droga, e o sangue jorrava do rosto em frangalhos e banhava o interior do meu maldito carro. Mas que Diabos! O que droga aquele cara fazia parado, naquela estrada, àquela hora? Como, meu Deus, como ele pode ter surgido tão de repente?
Eu estava confuso. Eu estava realmente muito confuso e precisava fazer alguma coisa urgentemente. Abri a porta do motorista e sai do carro, minhas pernas tremiam e a embriaguez não ajudava em nada na minha coordenação. Eu estava mais bêbado do que pensava.
Respirei fundo mais uma vez. O oxigênio parecia ser insuficiente para os meus pulmões. Olhei para um lado da pista e depois para o outro. Nada.
Fui até a dianteira do carro e olhei para o corpo, com muita relutância consegui tocá-lo. Depois fui mais longe e puxei o corpo para fora do pára-brisa. Ele estava encharcado de sangue e não ofereceu resistência alguma aos meus esforços.
Deslizei o corpo, deitei-o no chão e soltei um grito de terror ao me deparar com meu próprio rosto. Deitado com uma inconfundível cara de morto e em frangalhos. Na verdade tiras de carne banhada em sangue seria a melhor maneira de descrevê-lo. Gritei apavorado e considero pouco, pois se não estivesse bêbado teria enchido minhas calças com uma substância um tanto cremosa. Há-há, eu só podia estar ficando maluco. Aquilo não poderia estar acontecendo, poderia?
Sacudi a cabeça igual a um cachorro molhado. Como se estivesse tentando encaixar alguma coisa no lugar.
– Pelas barbas de John Lennon! – exclamei com a voz engrolada – Como é que pode?
Como (COMO?!), Diabos, eu, meu corpo, estava ali?
Não era verdade. Eu devia estar bêbado demais. Claro, só precisava dar mais uma olhada e...
– Diabos...
Não havia dúvidas. O sinal de carne que eu tenho no pescoço também existia no pescoço de meu sósia. Era eu mesmo, merda, era eu mesmo!
Pensar nisso tudo dessa forma resultou em uma mijada involuntária que deixaria um camelo com inveja. Sabe como é, mijada de bêbado. Quentinha, quentinha e fedorenta.
Eu não podia ficar ali parado. O efeito da bebida parecia estar se dissipando e eu tinha que fazer alguma coisa, droga, mas o quê? Os meus pensamentos estavam se atropelando. Ao mesmo tempo em que eu tentava entender a situação, também tentava encontrar uma forma de resolvê-la... Uma mão gelada e forte agarrou o meu pulso. Gritei, então percebi que fora só minha imaginação. Soltei uma risadinha, he-he! Daí achei a solução mais evidente. Como não havia pensado nisso antes?
Esconder o corpo.
Meu corpo.
– Isso não é o meu corpo. Ah, mas não é mesmo! – eu tentava manter a calma. Tentava segurar meu coração dentro do peito para que ele não resolvesse sair garganta afora. Mas era muito mais difícil do que você pensa, meu amigo.
Levantei o corpo com maior dificuldade (ele agora parecia estar pesando uns trinta quilos a mais) e olhei ao meu redor.
– A mata – murmurei.
– A mata?! – gritou minha mente em resposta. Uma voz que eu sempre associei à minha querida mãe, que Deus à tenha. – Mas que idéia brilhante, Einstein! Isaac Newton viraria a bunda pra você! Por que você não tenta cavar um buraco no asfalto com as mãos e enterrá-lo de cú-pra-cima, em direção ao pôr-do-sol? Seria lindo... Seu IDIOTA!
– A Sra tem alguma idéia melhor, mamãe? – perguntei em voz alta.
Não houve resposta. Eu sabia que não haveria. Mamãe era assim mesmo. Gostava de encher o saco e sempre que eu perguntava se ela tinha alguma idéia melhor ela se calava.
Arrastei o corpo até a orla da mata. Apertei os olhos e olhei em volta à procura de uma trilha.
– Nada. Meu Deus...
Espere.
Ora, ora. Aquilo era uma trilha, não era? Eu estava bêbado, estava tudo escuro e o mato cobria quase tudo, mas ainda assim era uma trilha.
Sem pensar duas vezes no que estava fazendo, levei o corpo por aquela trilha. O que eu pretendia? Não sei direito. Talvez eu estivesse apenas seguindo os meus instintos. Talvez eu estivesse demasiado confuso para agir de forma racional. Prefiro acreditar nessa hipótese.
Parei por um momento, olhei à minha volta (também não sei o que eu estava procurando) e avistei uma subida íngreme. Caminhei por ela com dificuldade. Não sabia o que iria encontrar. Estava escuro, entende? Eu estava bastante confuso.
Quando já havia subido bastante, tropecei e deixei o corpo cair. Ele rolou mole como uma boneca de trapo. Observei o corpo rolar ladeira a baixo e (inacreditável, não?) comecei a rir.
Ri como se alguém estivesse me fazendo cócegas, era uma risada de desespero, quase histeria. E então vomitei, um vômito amargo, meio amarelo-avermelhado e com bastantes partes sólidas, pedaços da carne do churrasco. Vomitei tudo o que tinha para vomitar e quando parei, ofegante e com os olhos lacrimejantes, comecei a pensar com maior clareza.
Eu estava perdido no meio de uma mata que eu não conhecia acompanhado do corpo morto do melhor sósia do mundo.
O – melhor – sósia – do – mundo.
– Façam suas apostas, rapazes – murmurei para a floresta – Não vão querer perder essa oportunidade, não é mesmo?
Minha mãe foi quem respondeu:
– Ah, é? Pois eu aposto que você está fodido, querido. Aposto dez por um. E pago à vista.
– Cale a boca, mãe. A senhora sempre foi uma péssima jogadora – E, dizendo isto, imaginei mamãe me olhando com uma cara de desdém. Uma cara que deixaria qualquer um com vontade de lhe dar um golpe de judô.
Olhei para o corpo caído, desengonçado, lá embaixo e respirei fundo.
Vamos ser um pouco lógicos aqui, amigão. Vai lá, vira aquele corpo e dá uma checada nos bolsos dele. Talvez você encontre os documentos dele. Documentos que vão provar pra você mesmo que ele não passa de alguém que se parece um pouco com você. Bem, um pouco é gentileza minha. Bastante é que é verdade.
Claro. Eu devia ter pensado nisso antes de resolver sair com ele mata-adentro.
Escorreguei de bunda e fui até o corpo. Ele jazia em uma posição bastante desconfortável e engraçada. Um molambo, pensei, e sorri. Virei-o e procurei em seus bolsos: Nada.
– E agora? O que você me sugere, hein?
Que tal a cicatriz?
– A cicatriz?
É, seu idiota, a porra da cicatriz!
Tudo bem. Eu tenho uma cicatriz na perna esquerda – lembrança dos tempos de infância – que tem mais ou menos 20 cm. Uma cicatriz que sempre me causa nostalgia e uma espécie de sentimento de perda. Tudo o que eu precisava fazer era levantar a perna esquerda do jeans de meu sósia e constatar que ele era apenas “alguém bastante parecido comigo”.
Meu coração, que já estava quase se acostumando com a situação, tornou a sambar.
– E se ele tiver a cicatriz? Meu Deus!
– Deixa de ser idiota! – Mamãe gritou em minha cabeça – Não faz sentido ele ter uma cicatriz igual a sua!
Mas ele tinha. E não era uma cicatriz igual a minha.
Era a minha.
Então eu gritei tão alto que tive a impressão de ter acordado algumas árvores. Se é que elas dormem.
Meu coração parecia que ia estourar. Minha visão começou a embaçar e eu tive a nítida impressão de que não passaria daquela noite. E, por falar nisso, que horas eram? Não sei.
A sensação de morte foi diminuindo aos poucos e a de vida foi aumentando. Eu precisava dar um jeito naquele corpo e não ficar procurando alguma lógica no que estava acontecendo. Depois que escondesse o corpo e saísse daquela mata, eu poderia gastar o resto da minha vida tentando encontrar uma explicação, agora, porém, precisava agir.
Eu sentia um torpor que, somado à embriaguez, tornava tudo aquilo meio onírico. Como se eu estivesse sonhando. E eu não estava? Claro que não. A não ser que fosse num nível diferente do qual estamos acostumados, um nível muito mais real. E foi com essa sensação que peguei o corpo pesado, apoiei nos ombros e subi com ele até o topo da ladeira íngreme novamente.
Ao chegar ao topo pude ver o céu estrelado e uma rajada de vento gelado beijou o meu rosto. Era uma espécie de clareira com um lago no meio, um lugar que era provavelmente usado por universitários em seus acampamentos sexuais.
Não hesitei um minuto sequer em jogar o corpo. O peso agora era tão insuportável que toda a sensação de sonho havia desaparecido. E talvez a decisão de jogar o corpo fosse mais de minha coluna, do que minha.
E mais uma vez o corpo rolou como se fosse uma boneca de trapo ladeira-abaixo. Escorreguei com cuidado e olhei à minha volta.
A princípio eu não acreditei no que estava vendo. Depois acreditei demais. Um pouco mais além de onde eu me encontrava, havia uma casa. Não, uma espécie de galpão feito de madeira podre. Olhei para o lago e um friozinho desceu pela minha espinha. Aquilo era um triste lago sem vida. Um lago que dava a impressão de abrigar uma criatura terrível da floresta.
Uma criatura sem forma, capaz de triturar todos os seus ossos.
Tentei afastar tal pensamento e me concentrar no corpo, mas acabei me concentrando no galpão. De todas as coisas que eu sentia necessidade naquele momento, a maior delas era o galpão. Eu precisava ir lá. Não sabia o que, ou quem encontraria, mas eu precisava ir lá.
Então eu fui, ignorei todo o meu medo e fui. Rumo ao desconhecido, como costumam dizer.
A madeira, de fato, estava podre e não havia nada impedindo a minha passagem. Entrei cauteloso, me preparando para correr a qualquer sinal de perigo. Lá dentro estava tudo escuro, olhei para trás, respirei fundo e fui em frente. Estendi as mãos para as paredes procurando um interruptor e não tardei em encontrá-lo. Apertei sem muita esperança, claro, a última coisa que eu esperava era que aquele galpão podre e fedido a madeira velha (para não falar úmido) tivesse uma lâmpada que funcionasse. E não é que ele tinha!
– Pronto – falei para o galpão vazio – o que será que o senhor Holmes teria a dizer sobre isso?
O galpão que eu pensara inicialmente estar vazio, não estava tão vazio assim. Havia ferramentas espalhadas por toda à parte. Velhas, é verdade, mas as mais variadas. Muitas estavam enferrujadas, outras eu não consegui identificar (mesmo tendo um vasto conhecimento a respeito de ferramentas), mas o que eu precisava mesmo estava ali. Caída sobre o canto direito do galpão estava uma pá que provavelmente já havia visto dias melhores.
Eu estava de fato pensando em enterrar o corpo. Eu poderia simplesmente jogá-lo no lago, mas o fato de ele, o corpo, ser tão parecido comigo de, meu Deus, ser o meu corpo, me desencorajava por completo. Eu não poderia ficar ali enquanto o meu corpo boiava em um lago sinistro, para depois mergulhar em um futuro terrível; servindo de alimento para o que quer que habitasse nas sua profundezas. Eu preferia vê-lo soterrado pela areia fofa e saber que ele serviria de alimento para vermes gordos e nojentos e que meus ossos virariam fertilizante para a terra.
Pensar nisso tudo dessa forma tornava as coisas piores. Afinal de que é que eu estava falando? Aquilo não era o meu corpo. Era um corpo, claro, mas não o meu. O meu corpo ainda estava vivo e estava bastante confuso quanto aos últimos acontecimentos. Mas estava ali, vivo, claro. Alguma dúvida?
*****
Quando eu saí da cabana (no final das contas conclui que o lugar estava mais para cabana do que para galpão), segurando a pá e tremendo mais do que vara verde, a noite já estava começando a criar um tom cinza-fosco. Logo amanheceria. O efeito do álcool já passara e a ressaca tentava me derrubar, mas eu precisava concluir tudo isso. Precisava enterrar o corpo.
Meu corpo.
Procurei um lugar que achei conveniente (um pouco afastado do lago) e comecei a cavar sem dificuldade. Cavei até que os primeiros raios de sol aparecessem no céu cinzento.
Cavei até o amanhecer (é interessante como o tempo passa quando a gente se diverte.) e quando percebi que já era suficiente, fui até meu corpo.
Olhá-lo sob a luz do sol foi um choque ainda maior. Não havia dúvidas. De fato aquele era o meu corpo. Aquele rosto, aquela cicatriz, tudo.
Engoli em seco e arrastei o corpo até o buraco. Coloquei-o da forma mais confortável que foi possível e comecei a enterrá-lo. Cada pá de terra era uma tortura. Mas terminei o trabalho com dignidade e logo estava caminhando pela mata, tentando encontrar o caminho de volta. Andei algumas horas, mas não sei especificar o quanto.
Quando cheguei à estrada da noite anterior não encontrei meu carro. Eu estava imundo e resolvi fazer o resto do trajeto à pé. Estava a uns 10 km de casa, mas tenho certeza que ninguém com os miolos no lugar me daria carona. Não com aquele cheiro. Meu estômago roncava, o sol me sacaneava, mas eu chegaria em casa, sim senhor, e teria uma surpresa daquelas...
Não foi à toa que, quando cheguei à rua onde moro, meus vizinhos me olharam com um misto de espanto e asco. Cumprimentei a todos normalmente. A maioria me cumprimentou de volta de forma estranha e outros sequer falaram.
Coxeei, tremendo, para casa. Retirei a chave-reserva da carteira (a outra cópia ficara no carro) e entrei. Eu não podia vê-los, mas tenho certeza que meus vizinhos ainda me olhavam com aquela cara de espanto idiota.
Quando estava entrando em casa ouvi o barulho de sirenes se aproximando. Não dei importância. Fui para o banheiro (banho, banho, banho...) e parei assim que abri a porta.
– Oh, meu... Deus!
Eu olhava para o espelho. Mas não era o meu rosto que estava ali. Era um rosto desconhecido, um rosto que eu jamais havia visto.
Instintivamente levantei a perna esquerda de minha calça.
Nada.
– Não pode ser! Não-pode-ser!
Nenhuma cicatriz.
As sirenes haviam parado. A campainha tocava. Dim-dom! Dim-dom! Dim-dom!
– Não, não, não, não!
Meu coração. O coração. Eu não conseguiria agüentar!
Uma dor cortante invadiu meu peito sugando todo o meu oxigênio. Eu tentava encher os meus pulmões, mas era inútil. O mundo começou a se apagar.
Em pouco tempo tudo ficou escuro. Era...como o vazio.
Não tive consciência do que aconteceu a seguir. Quando acordei, estava em uma clínica psiquiátrica.
Já fazia seis anos, foi o que me disseram, e meu médico me proibira de chegar próximo de qualquer espelho...