15.3.08

É, tentei evitar ao máximo essa minha atitude de agora, mas acontece que não tenho meios de continuar atualizando o blog (com ou sem freqüência), pois não disponho nem de computador, nem de tempo. É triste ter que tomar essa resolução quando eu começava a criar muitos planos para o mesmo, contudo não há nada que eu possa fazer em favor do contrário. Peço desculpas aos poucos, porém sempre carinhosos, leitores que passaram por aqui e deixo-lhes um abraço carinhoso e agradecido por todas as visitas e comentários.

Ah, eu poderia simplesmente excluir o blog, como muitos devem estar imaginando, mas eu não quero perder o domínio, além disso, talvez um dia as coisas melhorem para o meu lado e eu volte a aparecer por aqui. Obrigado, meus poucos e queridos leitores.

Dica de filme: La luna – Bertolucci;

Dica de livro: Do amor – Stendhal;

Dica de música: Come Here – Kath Bloom;

27.2.08

Parnaso moderno


I

O parnaso moderno é um bar
Onde sem roupas desfilam
Belas rameiras e ninfas
Enchendo nossas tulipas
De dourado néctar

Lá, vários copos tilintam
Mãos ágeis abrem caminho
Gritam: “Baco, Dionísio!”
Bebem sedentos seus vinhos.

Num canto, um triste poeta
Escolheu sentar sozinho
Fez da caneta sua alma
E da angústia o seu ninho

Escreve para a amada
Que está longe e o espera
Ou simplesmente não existe
Mas já não vive sem ela
O jovem poeta triste

Outros gritam em apelo
Versos de um belo poema
Denotam seu desespero
Trazem no peito um emblema

É o brasão dos que amam
E do amor são escravos
Seus corpos rijos profanam
A imagem do sagrado

É o poeta vidente
Em sua carcaça demente
Decadente no Parnaso

II

Eu, com meu teto de vidro,
Guardo em silêncio meu grito
Em piedade de mim

25.2.08

Respostas - 1



Estarei criando agora uma nova categoria de textos para o blog. São respostas literárias a outros textos que encontrar em blogs de amigos e desconhecidos. Esse primeiro texto se chama Bálsamo, e é da autoria da gaúcha Gabriela Sitta, que escreve para o blog Às palavras. A resposta vem na voz não da “menina” a quem o texto é dirigido, mas de uma outra a quem, digamos, o texto lhe serviu de ponto de partida para um auto-confronto existencial.



Bálsamo

Por Gabriela Sitta

Dedico-te um verbete. Isso te basta, menina? É que passo por ti na rua, meu anjo, e tuas roupas sujas de terra e teus cabelos compridos imploram por um instante de contemplação. E da vida tu nada sabes, apesar de saber da dor; e a vida é dor algumas vezes. Mas não se prenda a isso, menina bonita, pois que a vida é tão, tão linda e até uma bênção. Nem tudo é assim tão cruel como lhe parece, eu queria poder contar-te todas as coisas divertidas da vida que tenho em minha mente, mas bem sei que você transporá sozinha os limites tanto do sofrer quanto do viver. Talvez tu te mantenhas estática ou chegues a conhecer tanto sobre tudo que absorverás o bem e o mal e verás que eles nada são, compreenderás que a moralidade do homem é apenas uma fuga de seus instintos, saberás que para ser-se inteiramente é necessária uma maior intensidade em cada gesto, uma grandeza para enxergar um pouco mais além e um desregramento que devolve a cor à vida. Então haverá a poesia, meu bem; e haverá piadas, risos, comidas gostosas, pessoas interessantes, Coca-Cola, fotos entre amigos e cochilos vespertinos. E poderemos conversar a tarde toda, criança. Falaremos sobre coisas que não devem ser mencionadas, pentearei teu cabelo grosso, andaremos descalças para ter o prazer dos pés sujos, sorriremos e saberemos pertencer-nos uma a outra. Entretanto devo te dizer também que existem certas coisas imutáveis, que esforço algum modificará. Pense na tua beleza e não se prenda a ela, porque ela impõe-se a ti e na verdade ela nada é, apodrece; não vá também detestar a beleza do mundo, saiba encontrá-la a cada segundo, o que é um bom jogo, apesar de um tanto árduo. Admire a pureza; a tua própria e a do ser humano, posto que ser puro é estar na brisa e imensidão da origem, bem antes das leis dos homens. Existirão noites em que não se pode dormir e nessas você perambulará pelos cômodos, tentará ler ou ver um filme, tomar café ou fazer a sobrancelha; de nada adiantará. Em outras vezes ficarás tão entediada que viver lhe parecerá inconcebível. Em tardes de chuva poderás montar um quebra-cabeça e tomar chá bem quente. Vão existir histórias - uma porção delas -, algumas tão empolgantes a ponto de lhe causar emoções das mais intensas. Contudo, a vida lhe fascinará mais do que os contos, ainda que o idealismo nobre não esteja em alta, ainda que algumas existências sejam deprimentes, ainda que sejam necessárias algumas fugas, cedo ou tarde. Ainda assim a grandeza de ter a vida nas mãos lhe fará persistir e amar uma, duas, três vezes; apaixonar-se pelo ser que tu não conheces e cair de prantos por aquele que invalida tua angústia. Alguém te acolherá nos braços e tu te sentirás tão protegida, meu bem! Terás idéias pretensiosas e também farás gracejos que não arrancarão gargalhada alguma. Um ser qualquer se apaixonará por ti e tu jamais vais saber; e teu apaixonado olhará para a tua janela com uma freqüência e um ardor estarrecedores, te verá caminhando densa pelas ruas e te compreenderá mesmo quando tu não pedes compreensão. Outra ocasião, tu crerás que entende este ou aquele indivíduo, entretanto o que terás é apenas um fajuto conceito de entendimento e descobrirás que entender não é tão efêmero quanto lhe parecia. Haverá momentos de dança, criança; canções infinitas, sol brilhando e a água fria do mar te acertando em cheio; e você ficará satisfeitíssima em descobrir que a alegria assim, em pleno dia, é capaz de fazê-la se sentir leve. Mas hoje, meu bem, eu apenas passo por ti e nem sei bem se tu me vês ou se procuras algo e eu lhe perturbo a visão. Tu estás parada tão lindamente, tão ereta, quase sadia. E eu passo. E tantas vozes tu ainda vais ouvir; tantos pés calçados e descalços passarão por ti.



Fugas e lenitivos

Por Roberto Denser

Nunca aprendi a chorar, pelo menos não como a maioria das pessoas. Quando me trouxeram motivos, evitei confrontos, espelhos. Evitei as lágrimas que por certo era meu fado, mas não consegui evitar a dor. A dor sempre esteve presente, mas nunca decidi encará-la de frente, nunca tive vocação para mártir, complexo de Jesus Cristo, síndrome de Gandhi, aspiração ascética. Então procurei os mais exóticos lenitivos, da dormência à potência eu fui, mergulhando fundo, me afogando nesse mar de liberdade desesperadora, porque a liberdade desespera. Nós aprendemos isso muito cedo, assim como aprendemos a querer e querer sabe lá o quê. Qualquer coisa que nos tire um pouco dessa angústia inerente à condição humana.

Um pouco de paz, indisposição para a guerra: Querer & verdade, factus, factus est. Era um precipício, um mar de desespero no qual tentava inutilmente nadar, afogando-me lentamente e tentando desesperadamente me agarrar a alguma forma de esperança. Ela estava lá, eu só não sabia onde...

...Sobrevivi. Por mil diabos!

Gritei horrores e virei o meu cu ao avesso, em direção aos céus, enquanto blasfemava contra o que chamam de sagrado: “Aqui pelo menos há sangue, seus filhos da puta fodidos de merda!” Uivei feito uma louca: olhos inchados, vermelhos, pernas enfraquecidas pela ausência do exercício constante. “Se deixei meu corpo apodrecer foi porque vi ali um destino, hoje percebo que não mais ouvirei estrelas, não as quero, não as suporto!”

E eu, eu que amava tanto! Aqui existia a possibilidade de um amor real, um amor total! Eu que estava em overdose do belo: Beleza suficiente para mil vidas, ah, dançava tango ao som das asas das borboletas!

Sorria e meu riso era feito de verdades: Representação de uma pureza na qual então conseguia crer. Era engano, sei que era. Soube durante todo o tempo que durou. Mas a culpa de querer enganar a mim mesma não me pode ser atribuída, foi uma conseqüência imposta. Sequer percebi a loucura se aproximando, sequer percebi que era uma vítima.

Hoje tiro as luvas e toco as tuas palavras com as mãos nuas: Essas verdades me inflamam, senhorita, e fico possuída por uma vontade louca de me agarrar ao teu pulso, encostar minha cabeça em teu peito e chorar copiosamente essas dores. Beber contigo esse cálice de virtude, boa vontade e esperança (ou mesmo inocência), mas sei que jamais conseguirei me iludir novamente, tuas palavras são meu bálsamo, lenitivo que ainda consegue me fazer esperar pelo próximo parágrafo, mas o meu caso é grave, terminal: Não me iludo mais.

24.2.08

Biblioteca de pobre


Poema inspirado na minha biblioteca particular.

A biblioteca do pobre
é cheia de livros de bolso
em péssimas traduções
Volumes comprados em sebos
em precárias condições:

Páginas amarelas de papel-jornal
buracos, lanchinhos de traça
mijadas de rato, patas de barata
manchas de café, marcas de carimbo
cagadas de mosca, mosquito esmagado
suor de menino

Marcas de dedos imundos
de tantas leituras já feitas
páginas arreganhadas
lombadas desfeitas

Pobre leitor é o leitor pobre
apesar de tudo, vai indo
com uma postura de nobre
vai espirrando, tossindo
Do gênese ao apocalipse.

11.2.08

A vênus desnuda


“A Marilyn não faria isso”, observou Norma Jean Baker enquanto lia distraidamente um trecho do roteiro de something goes to give, filme que jamais seria finalizado por problemas de todos os tamanhos e vindos de todas as direções, “e direções em todos os sentidos mesmo!”, Norma pensou e sorriu. Ela bebericou um gole do champanha. Pegou alguns calmantes, estendeu a palma da mão e os contou mentalmente, “Quatro, acho que tá bom assim”, pensou e depois enfiou todos de uma só vez na boca, entornando o resto do espumante e depositando a taça sobre a mesa de cabeceira. “Preciso ligar para o Weinstein e lhe avisar que ninguém vai me impedir de ir ao aniversário do Kennedy, mas acho que isso pode esperar... Ah, quem a Fox pensa que é? Tenho certeza que toda essa pressão tem apenas um nome: Cukor. Sim, aquele desgraçado vai fazer de tudo para convencer o estúdio a me afastar do projeto, mas se ele pensa que vai conseguir... Está muito enganado! Comprar briga com a Marilyn? Onde já se viu...” Os calmantes pareciam estar começando a fazer efeito, suas pálpebras estavam pesadas, sua respiração tranqüila. “Amanhã ligarei para o Weinstein.” Foi seu último pensamento antes de cair no sono.

Sonhou que estava caindo em um abismo infinito. Caía simplesmente e nada importava, estava calma, estava em paz. Isso era bom, ela precisava disso, precisava saber, ter a certeza de que era possível ter um pouco de paz, fosse em um sonho maluco causado por alguma overdose de calmantes, fosse alguma realização, alguma conquista. Pensava assim, mesmo no sonho, quando foi invadida por incertezas e sentimentos de insuficiência, um turbilhão de terrores. Ela era só mais um rosto bonito, um objeto, um símbolo. Não era humana, era uma coisa! “Eu sou uma coisa...”, pensava inconscientemente e no sonho o abismo, antes largo, parecia se estreitar. Gargalhadas vindas de todas as direções. Ela olhava assustada. “A piada!”, gritavam as vozes com escárnio. “Norma Jean, sem nome, Baker!” “Norma Jean, Sem pai, Baker!” “Norma Jean, filha de puta maluca, Baker!” Eram, na sua maioria, vozes de homens. Logo um flash de máquina fotográfica a cegou e ela piscou os olhos assustada. Uma seqüência de flashes, vozes, gritos. A edição de um jornal veio esvoaçando em sua direção, ela o pegou e leu na primeira página a manchete: Marilyn Máquina Monroe, o objeto, se torna cada vez mais abjeto! Mais abaixo, estava: A loira de rostinho bonito, putinha de Hollywood, objeto, coisa, máquina, símbolo, corpo, sexo, mulher. Ela chorava e gritava e escondia o rosto humilhado nas mãos trêmulas. Gritava, gritava! As vozes riam cada vez mais alto até que ela não agüentou e urrou desesperada, implorando a Deus que a tirasse daquele pesadelo. Acordou aos prantos, os olhos vasculhando cada canto do quarto e parando na mesinha de cabeceira onde repousavam várias caixas de comprimidos e a taça vazia. Ela se levantou e ligou para Weinstein no meio da noite. Não mais conseguiu dormir.

24.12.07

Natal

A insignificância mais característica em Natal é, talvez, o fato das garotas aqui tomarem cerveja com canudinho. Elas não pedem copos, também não bebem na lata: “Um canudo, por favor”, dizem todas saçaricadas. Também essa não é especialidade exclusiva de uma única entidade, em todos os shows e festivais que fui, lá estavam elas, aos montes, com seus vestidos curtos de tecido lycra e suas latinhas empaladas por um ou dois canudos de plástico. Elas as seguram com as mãos desmunhecadas e sugam a cerveja fazendo um biquinho sensual.

Outras coisas bastante evidentes na cidade é que aqui, por mais que estejamos constantemente em movimento, sempre temos a impressão de estar andando em círculos e o fato da capital potiguar estar cheia, e o digo sem nenhum exagero, pelo menos nessa época do ano, de reis magos em todas as extremidades. Digo a vocês que desde que cheguei por aqui, não vi um único menino Jesus que seja, mas os reis magos estão em todos os malditos lugares! De ontem para hoje, contei dezoito reis magos, em seis lugares diferentes, mas existem outros que não contei por ainda consistirem em uma novidade.

As praias são as mais belas que já vi (algumas carregam um nome sinistro os quais não consegui — ainda — descobrir a procedência, são nomes como: Ponta Negra, Areia Preta etc.), e uma delas acabou por se tornar a minha favorita, talvez pelo fato de não ter um nome que evocasse às trevas do abismo infernal: Praia dos artistas (é uma pena que “qualquer coisa dos artistas” sempre me soe como nome de reality show barato).

Ontem comíamos frango à cubana, por conta de meu anfitrião, em um restaurante à beira-mar na praia dos artistas. Um motoqueiro sofreu um acidente e ficou lá caído por mais de uma hora (todo o tempo do jantar) até que uma ambulância finalmente chegou para socorrê-lo. Ele me contou que aqui a questão da saúde é um perigo, e falou sobre um jovem motoqueiro que, após levar uma queda e quebrar os dois braços, foi levado para o hospital onde lhe amputaram os membros apenas para fazê-lo parar de gritar que os braços estavam doendo pelo amor de deus estavam doendo. A estratégia médica deu certo e o rapaz calou.

Quando voltávamos, um ônibus atropelou outro motoqueiro. Olhei a tragédia pela janela do transporte coletivo em que estava, virei para o lado e comentei:

— Declararam temporada de caça aos motoqueiros por aqui, certo?

— Certo — disse ele não sem antes dar uma risada.

Eu não estava achando a menor graça.

Antes de pegarmos esse coletivo, porém, ele havia me dito que iria me mostrar um lugar de fazer qualquer um ter vontade de chorar e pedir perdão a Deus por todos os seus pecados. Lá fomos nós. O lugar em questão, nada mais era, do que uma maldita ponte de madeira caindo aos pedaços por sobre um precipício profundo cheio de pedras pontudas que pareciam dizer:

“— Vamos lá, doçura, vem pra o papai.”

O mar ficava um pouco mais além, completamente agressivo. Caminhamos por essa ponte, rangendo sob nossos pés, algumas madeiras soltas, e um barulho do tipo iéééc iéééc que me fez relembrar o pai nosso de trás para diante.

— Parece que estamos em Indiana Jones — disse ele.

Eu fiz a trilha sonora com a boca e depois engoli em seco. Estava nervoso.

Turistas existem de todas as cores e tamanhos: “Great, man!”, gritam com qualquer coisa. Pode ser um cachorro andando na rua impunemente, seja uma paisagem natural das mais belas.

Com tudo isso, porém, a coisa que mais incomoda aqui é o calor. É quente como o verão do inferno! Abafado, seco, dá vontade de não sair do chuveiro e a cerveja nunca é gelada o suficiente. Pra dormir é terrível, é como tentar dormir no microondas. A água da torneira é temida pela população geral e água mineral engarrafada vende como liquidação em loja feminina.

Nessas incursões por aqui, descobri um detalhe também inusitado: Nessa terra potiguar não se sabe fazer cachorro-quente: Eles cortam um pão francês amolecido com alguma coisa viscosa e enfiam uma salsicha do tamanho do pênis de um jumento excitado. Depois olham para você e dizem:

“— Sirva-se.”

Você entende que ela se refere aos potes com condimentos nauseabundos e vai embora assim mesmo.

19.12.07

De meus dias sombrios III

Esse conto foi escrito aos 15 anos. É o último dos contos de terror que postarei aqui por enquanto.

O Corpo

Não me venha dizer que sou mentiroso. Apesar dessa história ter acontecido comigo eu acredito nela tanto quanto você acreditará depois de ouvi-la. Não me considero bom contador de histórias, mas vou tentar reproduzir os fatos da melhor maneira possível.

Hoje, quando paro para pensar naquela noite, tudo o que vem à minha mente são imagens confusas e perturbadoras. Eu não estava lúcido naquela noite, mas tenho certeza de que o que vi foi real. O medo também foi real. Tão real que – só de pensar – meu cuzinho pisca como uma árvore de natal. Sim senhor.

Eu vinha do casamento da minha irmã e estava bêbado o suficiente para estourar o bafômetro de qualquer policial valentão. Dirigia meu velho Ford pela BR 230 e àquela hora a estrada estava tão deserta que poderíamos dar uma trepada no meio da pista sem se preocupar com o trânsito. Eram 01:20AM. O rádio do carro estava sintonizado na 101,7FM e eu acompanhava uma música dos Ramones, aquela que fala sobre um “cemitério de bichos”. Enquanto eu cantarolava, tamborilava os dedos no volante e, de vez em quando, levava uma latinha de kaiser a boca, remanescente do casamento de minha irmã, depois a deixava repousar em cima do painel de instrumentos.

Estava passando por um trecho da estrada que sempre me deixava silencioso, assustado. Havia uma mata de cada lado da estrada. Deixei a música seguir sem mim. Meu coração estava um pouco fora do ritmo normal e, se quer saber, eu estava com medo sim.

Vou lhe dar um conselho: Nunca beba dirigindo, você pode derrubar a cerveja. Foi exatamente isso que aconteceu, a latinha que oscilava sobre o painel de instrumentos caiu no meu colo e começou a derramar seu precioso líquido.

– Merda – disse, aquela era a última cerveja.

Baixei cabeça rapidamente e apanhei a lata. Ainda restava um pouco de cerveja, ufa! Quando olhei novamente para a estrada meu coração disparou. Havia uma pessoa no meio da pista, parada, me encarando. Não pensei duas vezes, pisei no freio com toda a força, mas já era tarde demais. O baque surdo do corpo se chocando contra o carro até hoje atormenta meus pesadelos. Fechei os olhos. Os pneus cantaram e o meu velho e amassado Ford dançou no asfalto.

O carro parou. O pára-brisa agora era estilhaços e o corpo estava ali, droga, e o sangue jorrava do rosto em frangalhos e banhava o interior do meu maldito carro. Mas que Diabos! O que droga aquele cara fazia parado, naquela estrada, àquela hora? Como, meu Deus, como ele pode ter surgido tão de repente?

Eu estava confuso. Eu estava realmente muito confuso e precisava fazer alguma coisa urgentemente. Abri a porta do motorista e sai do carro, minhas pernas tremiam e a embriaguez não ajudava em nada na minha coordenação. Eu estava mais bêbado do que pensava.

Respirei fundo mais uma vez. O oxigênio parecia ser insuficiente para os meus pulmões. Olhei para um lado da pista e depois para o outro. Nada.

Fui até a dianteira do carro e olhei para o corpo, com muita relutância consegui tocá-lo. Depois fui mais longe e puxei o corpo para fora do pára-brisa. Ele estava encharcado de sangue e não ofereceu resistência alguma aos meus esforços.

Deslizei o corpo, deitei-o no chão e soltei um grito de terror ao me deparar com meu próprio rosto. Deitado com uma inconfundível cara de morto e em frangalhos. Na verdade tiras de carne banhada em sangue seria a melhor maneira de descrevê-lo. Gritei apavorado e considero pouco, pois se não estivesse bêbado teria enchido minhas calças com uma substância um tanto cremosa. Há-há, eu só podia estar ficando maluco. Aquilo não poderia estar acontecendo, poderia?

Sacudi a cabeça igual a um cachorro molhado. Como se estivesse tentando encaixar alguma coisa no lugar.

– Pelas barbas de John Lennon! – exclamei com a voz engrolada – Como é que pode?

Como (COMO?!), Diabos, eu, meu corpo, estava ali?

Não era verdade. Eu devia estar bêbado demais. Claro, só precisava dar mais uma olhada e...

– Diabos...

Não havia dúvidas. O sinal de carne que eu tenho no pescoço também existia no pescoço de meu sósia. Era eu mesmo, merda, era eu mesmo!

Pensar nisso tudo dessa forma resultou em uma mijada involuntária que deixaria um camelo com inveja. Sabe como é, mijada de bêbado. Quentinha, quentinha e fedorenta.

Eu não podia ficar ali parado. O efeito da bebida parecia estar se dissipando e eu tinha que fazer alguma coisa, droga, mas o quê? Os meus pensamentos estavam se atropelando. Ao mesmo tempo em que eu tentava entender a situação, também tentava encontrar uma forma de resolvê-la... Uma mão gelada e forte agarrou o meu pulso. Gritei, então percebi que fora só minha imaginação. Soltei uma risadinha, he-he! Daí achei a solução mais evidente. Como não havia pensado nisso antes?

Esconder o corpo.

Meu corpo.

– Isso não é o meu corpo. Ah, mas não é mesmo! – eu tentava manter a calma. Tentava segurar meu coração dentro do peito para que ele não resolvesse sair garganta afora. Mas era muito mais difícil do que você pensa, meu amigo.

Levantei o corpo com maior dificuldade (ele agora parecia estar pesando uns trinta quilos a mais) e olhei ao meu redor.

– A mata – murmurei.

– A mata?! – gritou minha mente em resposta. Uma voz que eu sempre associei à minha querida mãe, que Deus à tenha. – Mas que idéia brilhante, Einstein! Isaac Newton viraria a bunda pra você! Por que você não tenta cavar um buraco no asfalto com as mãos e enterrá-lo de cú-pra-cima, em direção ao pôr-do-sol? Seria lindo... Seu IDIOTA!

– A Sra tem alguma idéia melhor, mamãe? – perguntei em voz alta.

Não houve resposta. Eu sabia que não haveria. Mamãe era assim mesmo. Gostava de encher o saco e sempre que eu perguntava se ela tinha alguma idéia melhor ela se calava.

Arrastei o corpo até a orla da mata. Apertei os olhos e olhei em volta à procura de uma trilha.

– Nada. Meu Deus...

Espere.

Ora, ora. Aquilo era uma trilha, não era? Eu estava bêbado, estava tudo escuro e o mato cobria quase tudo, mas ainda assim era uma trilha.

Sem pensar duas vezes no que estava fazendo, levei o corpo por aquela trilha. O que eu pretendia? Não sei direito. Talvez eu estivesse apenas seguindo os meus instintos. Talvez eu estivesse demasiado confuso para agir de forma racional. Prefiro acreditar nessa hipótese.

Parei por um momento, olhei à minha volta (também não sei o que eu estava procurando) e avistei uma subida íngreme. Caminhei por ela com dificuldade. Não sabia o que iria encontrar. Estava escuro, entende? Eu estava bastante confuso.

Quando já havia subido bastante, tropecei e deixei o corpo cair. Ele rolou mole como uma boneca de trapo. Observei o corpo rolar ladeira a baixo e (inacreditável, não?) comecei a rir.

Ri como se alguém estivesse me fazendo cócegas, era uma risada de desespero, quase histeria. E então vomitei, um vômito amargo, meio amarelo-avermelhado e com bastantes partes sólidas, pedaços da carne do churrasco. Vomitei tudo o que tinha para vomitar e quando parei, ofegante e com os olhos lacrimejantes, comecei a pensar com maior clareza.

Eu estava perdido no meio de uma mata que eu não conhecia acompanhado do corpo morto do melhor sósia do mundo.

O – melhor – sósia – do – mundo.

– Façam suas apostas, rapazes – murmurei para a floresta – Não vão querer perder essa oportunidade, não é mesmo?

Minha mãe foi quem respondeu:

– Ah, é? Pois eu aposto que você está fodido, querido. Aposto dez por um. E pago à vista.

– Cale a boca, mãe. A senhora sempre foi uma péssima jogadora – E, dizendo isto, imaginei mamãe me olhando com uma cara de desdém. Uma cara que deixaria qualquer um com vontade de lhe dar um golpe de judô.

Olhei para o corpo caído, desengonçado, lá embaixo e respirei fundo.

Vamos ser um pouco lógicos aqui, amigão. Vai lá, vira aquele corpo e dá uma checada nos bolsos dele. Talvez você encontre os documentos dele. Documentos que vão provar pra você mesmo que ele não passa de alguém que se parece um pouco com você. Bem, um pouco é gentileza minha. Bastante é que é verdade.

Claro. Eu devia ter pensado nisso antes de resolver sair com ele mata-adentro.

Escorreguei de bunda e fui até o corpo. Ele jazia em uma posição bastante desconfortável e engraçada. Um molambo, pensei, e sorri. Virei-o e procurei em seus bolsos: Nada.

– E agora? O que você me sugere, hein?

Que tal a cicatriz?

– A cicatriz?

É, seu idiota, a porra da cicatriz!

Tudo bem. Eu tenho uma cicatriz na perna esquerda – lembrança dos tempos de infância – que tem mais ou menos 20 cm. Uma cicatriz que sempre me causa nostalgia e uma espécie de sentimento de perda. Tudo o que eu precisava fazer era levantar a perna esquerda do jeans de meu sósia e constatar que ele era apenas “alguém bastante parecido comigo”.

Meu coração, que já estava quase se acostumando com a situação, tornou a sambar.

– E se ele tiver a cicatriz? Meu Deus!

– Deixa de ser idiota! – Mamãe gritou em minha cabeça – Não faz sentido ele ter uma cicatriz igual a sua!

Mas ele tinha. E não era uma cicatriz igual a minha.

Era a minha.

Então eu gritei tão alto que tive a impressão de ter acordado algumas árvores. Se é que elas dormem.

Meu coração parecia que ia estourar. Minha visão começou a embaçar e eu tive a nítida impressão de que não passaria daquela noite. E, por falar nisso, que horas eram? Não sei.

A sensação de morte foi diminuindo aos poucos e a de vida foi aumentando. Eu precisava dar um jeito naquele corpo e não ficar procurando alguma lógica no que estava acontecendo. Depois que escondesse o corpo e saísse daquela mata, eu poderia gastar o resto da minha vida tentando encontrar uma explicação, agora, porém, precisava agir.

Eu sentia um torpor que, somado à embriaguez, tornava tudo aquilo meio onírico. Como se eu estivesse sonhando. E eu não estava? Claro que não. A não ser que fosse num nível diferente do qual estamos acostumados, um nível muito mais real. E foi com essa sensação que peguei o corpo pesado, apoiei nos ombros e subi com ele até o topo da ladeira íngreme novamente.

Ao chegar ao topo pude ver o céu estrelado e uma rajada de vento gelado beijou o meu rosto. Era uma espécie de clareira com um lago no meio, um lugar que era provavelmente usado por universitários em seus acampamentos sexuais.

Não hesitei um minuto sequer em jogar o corpo. O peso agora era tão insuportável que toda a sensação de sonho havia desaparecido. E talvez a decisão de jogar o corpo fosse mais de minha coluna, do que minha.

E mais uma vez o corpo rolou como se fosse uma boneca de trapo ladeira-abaixo. Escorreguei com cuidado e olhei à minha volta.

A princípio eu não acreditei no que estava vendo. Depois acreditei demais. Um pouco mais além de onde eu me encontrava, havia uma casa. Não, uma espécie de galpão feito de madeira podre. Olhei para o lago e um friozinho desceu pela minha espinha. Aquilo era um triste lago sem vida. Um lago que dava a impressão de abrigar uma criatura terrível da floresta.

Uma criatura sem forma, capaz de triturar todos os seus ossos.

Tentei afastar tal pensamento e me concentrar no corpo, mas acabei me concentrando no galpão. De todas as coisas que eu sentia necessidade naquele momento, a maior delas era o galpão. Eu precisava ir lá. Não sabia o que, ou quem encontraria, mas eu precisava ir lá.

Então eu fui, ignorei todo o meu medo e fui. Rumo ao desconhecido, como costumam dizer.

A madeira, de fato, estava podre e não havia nada impedindo a minha passagem. Entrei cauteloso, me preparando para correr a qualquer sinal de perigo. Lá dentro estava tudo escuro, olhei para trás, respirei fundo e fui em frente. Estendi as mãos para as paredes procurando um interruptor e não tardei em encontrá-lo. Apertei sem muita esperança, claro, a última coisa que eu esperava era que aquele galpão podre e fedido a madeira velha (para não falar úmido) tivesse uma lâmpada que funcionasse. E não é que ele tinha!

– Pronto – falei para o galpão vazio – o que será que o senhor Holmes teria a dizer sobre isso?

O galpão que eu pensara inicialmente estar vazio, não estava tão vazio assim. Havia ferramentas espalhadas por toda à parte. Velhas, é verdade, mas as mais variadas. Muitas estavam enferrujadas, outras eu não consegui identificar (mesmo tendo um vasto conhecimento a respeito de ferramentas), mas o que eu precisava mesmo estava ali. Caída sobre o canto direito do galpão estava uma pá que provavelmente já havia visto dias melhores.

Eu estava de fato pensando em enterrar o corpo. Eu poderia simplesmente jogá-lo no lago, mas o fato de ele, o corpo, ser tão parecido comigo de, meu Deus, ser o meu corpo, me desencorajava por completo. Eu não poderia ficar ali enquanto o meu corpo boiava em um lago sinistro, para depois mergulhar em um futuro terrível; servindo de alimento para o que quer que habitasse nas sua profundezas. Eu preferia vê-lo soterrado pela areia fofa e saber que ele serviria de alimento para vermes gordos e nojentos e que meus ossos virariam fertilizante para a terra.

Pensar nisso tudo dessa forma tornava as coisas piores. Afinal de que é que eu estava falando? Aquilo não era o meu corpo. Era um corpo, claro, mas não o meu. O meu corpo ainda estava vivo e estava bastante confuso quanto aos últimos acontecimentos. Mas estava ali, vivo, claro. Alguma dúvida?

*****

Quando eu saí da cabana (no final das contas conclui que o lugar estava mais para cabana do que para galpão), segurando a pá e tremendo mais do que vara verde, a noite já estava começando a criar um tom cinza-fosco. Logo amanheceria. O efeito do álcool já passara e a ressaca tentava me derrubar, mas eu precisava concluir tudo isso. Precisava enterrar o corpo.

Meu corpo.

Procurei um lugar que achei conveniente (um pouco afastado do lago) e comecei a cavar sem dificuldade. Cavei até que os primeiros raios de sol aparecessem no céu cinzento.

Cavei até o amanhecer (é interessante como o tempo passa quando a gente se diverte.) e quando percebi que já era suficiente, fui até meu corpo.

Olhá-lo sob a luz do sol foi um choque ainda maior. Não havia dúvidas. De fato aquele era o meu corpo. Aquele rosto, aquela cicatriz, tudo.

Engoli em seco e arrastei o corpo até o buraco. Coloquei-o da forma mais confortável que foi possível e comecei a enterrá-lo. Cada pá de terra era uma tortura. Mas terminei o trabalho com dignidade e logo estava caminhando pela mata, tentando encontrar o caminho de volta. Andei algumas horas, mas não sei especificar o quanto.

Quando cheguei à estrada da noite anterior não encontrei meu carro. Eu estava imundo e resolvi fazer o resto do trajeto à pé. Estava a uns 10 km de casa, mas tenho certeza que ninguém com os miolos no lugar me daria carona. Não com aquele cheiro. Meu estômago roncava, o sol me sacaneava, mas eu chegaria em casa, sim senhor, e teria uma surpresa daquelas...

Não foi à toa que, quando cheguei à rua onde moro, meus vizinhos me olharam com um misto de espanto e asco. Cumprimentei a todos normalmente. A maioria me cumprimentou de volta de forma estranha e outros sequer falaram.

Coxeei, tremendo, para casa. Retirei a chave-reserva da carteira (a outra cópia ficara no carro) e entrei. Eu não podia vê-los, mas tenho certeza que meus vizinhos ainda me olhavam com aquela cara de espanto idiota.

Quando estava entrando em casa ouvi o barulho de sirenes se aproximando. Não dei importância. Fui para o banheiro (banho, banho, banho...) e parei assim que abri a porta.

– Oh, meu... Deus!

Eu olhava para o espelho. Mas não era o meu rosto que estava ali. Era um rosto desconhecido, um rosto que eu jamais havia visto.

Instintivamente levantei a perna esquerda de minha calça.

Nada.

– Não pode ser! Não-pode-ser!

Nenhuma cicatriz.

As sirenes haviam parado. A campainha tocava. Dim-dom! Dim-dom! Dim-dom!

– Não, não, não, não!

Meu coração. O coração. Eu não conseguiria agüentar!

Uma dor cortante invadiu meu peito sugando todo o meu oxigênio. Eu tentava encher os meus pulmões, mas era inútil. O mundo começou a se apagar.

Em pouco tempo tudo ficou escuro. Era...como o vazio.

Não tive consciência do que aconteceu a seguir. Quando acordei, estava em uma clínica psiquiátrica.

Já fazia seis anos, foi o que me disseram, e meu médico me proibira de chegar próximo de qualquer espelho...